Disritmia - Condado Tech
Imagine um restaurante com fila na calçada todas as noites. Reserva esgotada, cozinha no limite, o maior movimento desde a inauguração. Na segunda-feira você abre o caderno de economia e lê que o dono precisou vender o estabelecimento por menos da metade do que pagou dois anos atrás. Uma das duas informações está em descompasso, e para que você não precise se esconder debaixo da saia de alguém para fugir do mundo, a Condado Tech desse mês te explica o que está acontecendo.
Foi mais ou menos a cena cripto no segundo trimestre de 2026. O Bitcoin caiu 14% e fechou o terceiro trimestre consecutivo de queda, a sequência mais longa desde o famigerado bear market de 2022. Nos mesmos três meses, o NASDAQ 100 subiu 15%.
O dinheiro rumou para outro destino e não estava preocupado em se fazer discreto. A SpaceX fez seu IPO em 12 de junho e levantou mais de US$ 85 bilhões, quase o triplo do recorde da Saudi Aramco em 2019. O que sobrou de dinheiro foi absorvido por semicondutor e data center.
Fonte: Market Pulse - Hashdex
Cripto entrou em muita carteira com uma missão específica: andar com as próprias pernas. E foi isso que aconteceu de abril a junho. Enquanto a bolsa americana subia forte, cripto foi para o outro lado, e a Hashdex mostrou no relatório trimestral que essa independência em relação às ações de tecnologia se manteve ao longo de todo o ano. Quem pediu descorrelação recebeu descorrelação.
Pedir que ela apareça só quando a bolsa cai seria pedir demais. Um ativo com relógio próprio anda sozinho nos dois sentidos: nos trimestres em que ele sobe com o resto caindo e nos trimestres em que ele cai com o resto subindo. O primeiro tipo é o que costuma empolgar os criadores de manchetes com alta incidência de cliques. O segundo foi o que aconteceu agora. Mesma característica, conta diferente.
Isso tudo é o viés do preço, três meses pouco empolgantes. O viés do volume conta outra história.
Junho foi o mês mais movimentado da história da Solana. A rede processou quase 4 bilhões de transações justamente no mês em que o preço tocou o fundo do ciclo, uns dois terços abaixo do topo. Os aplicativos construídos em cima dela faturaram por volta de US$ 148 milhões por mês no primeiro semestre, receita paga por gente que precisava da rede para alguma coisa, muita coisa.
Fonte: Market Pulse - Hashdex
No último inverno cripto, em 2022, a Solana caiu 96% do topo depois do colapso da FTX, só que daquela vez o uso da rede desabou junto, não tinha mais ninguém lá. Desta vez não houve falência, nem insolvência, nem contágio. Houve saída de capital de um mercado inteiro enquanto a rede batia recorde de atividade. Preço vs. Fundamento.
E o que essas transações estavam levando pra lá e pra cá? Boa parte delas ações de empresas analógicas. O volume de ações tokenizadas negociadas on-chain bateu recorde em junho, e quase um terço era papel da SpaceX. O resto do inventário tokenizado não tem tanto glamour, mas tem muita relevância: título público, crédito privado, e o próprio ouro.
Quem está plugado na Solana hoje inclui Visa, Citi, State Street, Amundi, Western Union, Stripe e PayPal. Rede de cartão, banco custodiante, gestora de fundos, empresa de remessa, processadora de pagamento. Nenhuma delas é casa de cripto. E a Vanguard, que passou anos tratando o assunto com um respeitoso desdém, preencheu vaga no linkedin para o cargo de diretor de ativos digitais pela primeira vez na história.
Boa parte do mercado passou o ano tratando o CLARITY Act, o projeto americano que organiza a supervisão dos ativos digitais, como o interruptor que vai ligar tudo. O interruptor está emperrado. As casas de apostas, que em maio davam 73% de chance de sanção ainda neste ano, hoje falam em algo perto de 40%, e o que segura o texto é lobby bancário, briga sobre conflito de interesse e calendário de Senado lotado. Nada disso tem qualquer relação com tecnologia.
Enquanto o pessoal não resolve ligar o interruptor, a gente vai acompanhando o que já andou sem ele. Os ETFs à vista de Solana e de XRP foram aprovados e listados porque a SEC mudou os padrões genéricos de listagem em setembro de 2025 e encurtou a fila de oito meses para dois e meio. O regime americano de stablecoins virou lei no ano passado. No Brasil, as regras do Banco Central para prestadores de serviço de ativos virtuais já estão valendo. A construção andou a despeito da lei do mesmo jeito que está andando sem se importar com o preço.
E repare também no que aquelas empresas não fizeram. A Western Union não virou casa de cripto para mandar dinheiro em stablecoin, e a Amundi não montou mesa de custódia para tokenizar fundo. Nenhuma delas construiu trilho próprio, porque construir trilho próprio significa operar nó, guardar chave privada, responder por custódia de patrimônio de terceiro e provar tudo isso para um regulador. Elas plugaram em quem já opera essa camada.
No Brasil, esse é o trabalho da Foxbit Infra. Custódia institucional em parceria com a BitGo, entregue por API para a empresa oferecer o produto com a própria marca, dentro do marco do Bacen. O que muda na prática é o organograma. A gestora que quer dar exposição a ativo digital não precisa contratar time de custódia, não escreve política de chave privada e não vira parte regulada de uma atividade que não é a dela. Ela pluga a camada e continua vendendo fundo, utilizando a infraestrutura financeira da Foxbit . O uso cresceu no trimestre em boa parte porque usar deixou de exigir que a empresa aprendesse a operar blockchain
De volta ao restaurante. O preço de venda revela quanto alguém topou pagar pelo negócio, num semestre em que o dinheiro do mundo inteiro resolveu comprar data center, sobra menos para investir em empreendimentos. A fila revela quanta gente aparece para jantar, o valor entregue pelo negócio. Junho foi o mês da disritmia, em que a fila dobrou o quarteirão enquanto todo mundo olhava para o preço de venda.



