O valor das Stablecoins
No século XIX a humanidade passou por um problema curioso: a transferência de informações atingiu a velocidade da luz, enquanto as transferências de valor ainda precisavam obedecer a limitações do mundo físico. Com a invenção do telégrafo, um banqueiro em Londres podia avisar Nova Iorque em minutos que um pagamento havia sido feito, mas o ouro, a liquidação final daquela promessa, ainda demorava semanas para cruzar o Atlântico num navio a vapor. Nascia assim o abismo entre o aviso de pagamento e a entrega do valor; a distinção entre mensageria e liquidação.
Na Condado Tech deste mês, vamos dissecar as ferramentas obsoletas que ainda usamos para tentar cobrir esse abismo e mostrar como as Stablecoins podem ser a infraestrutura que resolve esse atraso secular.
O (não tão) SWIFT
Passaram 150 anos desde a invenção do telégrafo e, surpreendentemente, a infraestrutura bancária global ainda mantém essa tradição. O sistema SWIFT, principal trilho para transferência de recursos entre países, foi fundado em 1973 por um consórcio de bancos globais para resolver o pesadelo operacional e de segurança que era o uso do Telex. No final das contas, nada mais é do que um “telégrafo gourmet”.
O SWIFT é um sistema seguro de mensagens, não de pagamentos. Ele manda o recado (Ei, paguei aqui, hein?), mas o dinheiro real ainda tem de saltar de banco em banco, preso a horários comerciais, fusos horários e feriados locais, demorando dias para chegar e custando uma fortuna. É como se enviássemos a notificação de pagamento pelo WhatsApp, mas o dinheiro chegasse de carroça.
Moedas de ouro (ou o dinheiro físico) permitiam a atomicidade nessas duas pernas da transação, mas têm um defeito grave: exigem que as duas pessoas estejam no mesmo lugar ao mesmo tempo. Se sua necessidade transacional for comprar cigarro paraguaio na ponte da amizade, as limitações do SWIFT realmente não te incomodam. Acontece que, para a tristeza dos oncologistas, esse tipo de negócio representa uma parcela irrisória das necessidades globais de movimentação de recursos.
Aqui no Brasil a gente aproximou mensagem e liquidação ao substituir a TED pelo PIX, e agora ninguém precisa mais passar vergonha correndo pra fazer a transação digital antes do banco fechar as “portas”.
O que viabilizou isso foi a ação impecável de um Banco Central que entende a importância da tecnologia e que tem mandato para impor um protocolo de transação unificado no território inteiro. No final das contas, apesar de discordar a respeito da melhor sandália para começar 2026, ainda somos um só país, o que permite que esse avanço tecnológico que junta mensagem e liquidação seja implementado de forma centralizada.
Em tempos de presidentes latinoamericano sendo obrigados a optar por uma “viagem misteriosa”, não dá pra contar com cooperação para sanar sua ansiedade de esperar o dinheiro cair na conta de um banco em outro país.
Apesar de sua lentidão cumprir muito bem o papel de exemplo para quando alguém te perguntar qual a definição de ironia (“swift” significa rápido em inglês), os problemas do SWIFT não param por aí. Além da demora, existe também a questão da permissão. O sistema opera numa rede de ‘bancos correspondentes’. Ou seja, para o dinheiro fluir, o Banco A precisa ter conta no Banco B ou achar um amigo em comum. É um clube.
Se essa corrente de confiança for quebrada, seja por sanções, compliance excessivo ou briga política, você é desligado. O sistema atual não é uma infraestrutura neutra; ele tem dono e botão de “eject”. Basicamente, a economia global roda num sistema onde você precisa que os países se dêem bem para conseguir pagar um boleto internacional.
Seria ótimo se a gente conseguisse inventar um protocolo de transações que não dependesse da instauração da paz mundial para funcionar e que não te deixasse na mão quando o presidente do seu país ficasse de mal com o presidente dos EUA. Será que existe algo parecido com isso no mundo?
Stablecoins ao resgate
Enquanto o mundo da informação migrou para o tempo real, o mundo do dinheiro continuou a mandar “faxes”. As stablecoins deixaram de ser apenas fichas de casino para traders e tornaram-se o que sempre prometeram ser: a atualização de software que o dinheiro esperava há décadas. O “WhatsApp” dos pagamentos chegou, e de repente, mandar um fax parece não só obsoleto, mas uma irresponsabilidade financeira.
A inovação fundamental das stablecoins reside na liquidação atômica. Diferente do sistema bancário tradicional, onde a mensagem de pagamento e a movimentação financeira correm em trilhos separados e assíncronos, na blockchain o envio do token representa a própria transferência de propriedade do ativo. Isso elimina o “gap” temporal e o risco de contraparte inerente ao modelo de compensação legado. A transação ocorre em uma infraestrutura que opera ininterruptamente (24/7), permitindo que a liquidação financeira finalmente acompanhe a velocidade do fluxo de informações.
Ao operar sobre trilhos descentralizados, as stablecoins removem a necessidade da complexa cadeia de bancos correspondentes. A blockchain atua como uma camada de liquidação universal e agnóstica, onde a validade da transação é garantida por consenso matemático e criptográfico, e não por confiança institucional ou relações bilaterais entre bancos. Isso reduz drasticamente os custos operacionais e remove os múltiplos intermediários que, no sistema SWIFT, adicionam fricção, taxas e pontos de falha ao processo.
Por fim, essa tecnologia endereça o problema da permissão através da neutralidade do protocolo. Stablecoins oferecem uma infraestrutura de “soberania neutra”, ideal para o comércio internacional, pois não exigem cooperação política entre as pontas da transação para funcionar. O código não discrimina origem ou destino baseando-se em alinhamentos geopolíticos; ele apenas executa instruções válidas. Isso transforma a moeda em um ativo digital programável e interoperável globalmente, devolvendo a eficiência ao sistema de pagamentos transfronteiriços.
Quem já entendeu para onde estamos indo
Em outubro de 2024, a Stripe confirmou a aquisição da Bridge por US$ 1,1 bilhão, a maior compra da história da empresa até então. A Bridge, fundada por Zach Abrams e Sean Yu - veteranos que já haviam vendido a Evenly para a Block (antiga Square) -, atua na camada de infraestrutura. O produto não é voltado ao consumidor final, mas sim uma API de orquestração que permite a empresas integrar emissão, armazenamento e transferência de stablecoins sem a necessidade de desenvolver custódia própria ou gestão complexa de liquidez on-chain.
Para contextualizar a magnitude do negócio, a Stripe é amplamente considerada a camada de infraestrutura financeira da internet moderna. Fundada em 2010 pelos irmãos Patrick e John Collison, seu diferencial reside em oferecer APIs amigáveis para desenvolvedores, o que lhe garantiu a liderança no processamento de pagamentos para gigantes como Amazon, Shopify e Uber.
O ano de 2025 foi dedicado à integração operacional dessa tese. A empresa habilitou funcionalidades que permitem a corporações em mais de 100 países manterem saldo em Dólar Digital diretamente na plataforma, eliminando a necessidade de contas bancárias domiciliadas nos EUA para operações de tesouraria internacional. Simultaneamente, investiu na aquisição de tecnologias de carteira digital para abstrair a gestão de chaves privadas, removendo a fricção técnica para o usuário final que não domina o ecossistema cripto.
A estratégia se consolidou com a oferta de infraestrutura white-label, permitindo que grandes instituições financeiras emitam seus próprios tokens lastreados sob uma gestão de reservas auditada, utilizando os trilhos da fintech apenas como camada de serviço. Ao ultrapassar a marca de US$ 1,5 trilhão em volume total processado no último ano, a companhia deixou de atuar apenas como um gateway de cartões para se posicionar como uma rede de liquidação híbrida, capaz de mover valor globalmente com custos marginais inferiores aos do sistema SWIFT. Se em 2024 a Stripe era avaliada em cerca de US$ 70 bilhões, transações no mercado secundário ao final de 2025 já indicavam uma avaliação implícita próxima a US$ 129 bilhões.
Conclusão
A migração dos trilhos financeiros analógicos (SWIFT) para a infraestrutura digital (Stablecoins) é uma realidade contábil validada por movimentos de bilhões de dólares. A eficiência de liquidação em segundos e a independência de acordos geopolíticos para mover valor tornam essa tecnologia a escolha racional para uma economia globalizada. Sua empresa pode continuar operando na lógica do “fax”, aguardando dias pela compensação bancária e pagando taxas de correspondentes, ou pode se adaptar à velocidade da internet.
A nossa parceira Foxbit Business, atua justamente na interseção entre a segurança institucional e essa nova eficiência transacional. Oferecem a infraestrutura necessária para que o seu negócio utilize stablecoins para pagamentos internacionais, conversão de tesouraria e liquidação imediata, com suporte local e total aderência às normas brasileiras. O futuro do dinheiro já chegou; a questão é se o seu financeiro já está conectado a ele.

