Tokenizar é humano
Imagine um mercador de grãos chamado Enki, nascido na cidade suméria de Uruk, por volta de 3.000 a.C. Ele precisa adquirir ferramentas de um ferreiro local, mas sua safra de cevada ainda não foi colhida. Transportar sacas de grãos que ainda não existem é impossível. Em vez disso, Enki marca uma tabuleta de argila úmida com uma cunha de junco, registrando a promessa de entrega da cevada após o período de colheita.
Ele entrega a argila ao ferreiro. O ferreiro aceita e entrega as ferramentas a Enki. Naquele momento, a argila não é o grão, mas ela carrega o significado e o valor do grão. Enki não apenas criou um contrato, ele realizou um ato de tokenização. Abstraiu um ativo físico em um símbolo cujo significado é compartilhado pelos sumérios e com isso viabilizou uma transação.
A tokenização não é uma invenção tecnológica moderna, é um processo cognitivo e social intrinsecamente humano. Trata-se de nossa capacidade de produzir metonímias: tomar a parte pelo todo, ou o símbolo pela realidade que ele representa. Assim como a linguagem usa palavras (tokens gráficos) para “transacionar” informações e descrever o mundo sem precisar apresentar o objeto físico a cada frase, a economia usa tokens para transacionar valor sem a necessidade de transportar o objeto físico transacionado imediatamente.
A história financeira é, em essência, a história da evolução desses tokens.
A Evolução dos Símbolos de Valor: Para compreendermos o momento atual dos mercados de capitais é útil revisitar como a humanidade sempre buscou “tokenizar” a realidade econômica para ganhar eficiência e escala.
As Tabuletas da Mesopotâmia (Séc. XXI a.C.): Muito antes da invenção das moedas, as sociedades mesopotâmicas desenvolveram um sistema sofisticado para formalizar e transacionar obrigações. O mecanismo de segurança baseava-se no uso de tabuletas de argila para registrar os termos do contrato: devedor, quantidades, credor, taxas de juros. Essas tabuletas eram guardadas em envelopes também de argila, selados por testemunhas. Caso houvesse disputa sobre os termos do contrato, o invólucro externo era rompido diante de uma autoridade para revelar o registro original, protegido e intocado em seu interior.
Essa prática permitia que o crédito se tornasse um objeto tangível e móvel. Em períodos como o babilônico, surgiram fórmulas contratuais estabelecendo que “o portador da tabuleta é o credor”, o que na prática transformava o registro de argila em um título ao portador, ou melhor, um token de valor transferível.
Ao permitir que promessas de entrega futura, como safras de cevada ou quantidades de prata, circulassem com a praticidade de um registro físico, as tábuas de argila mitigavam as fricções da troca imediata. O direito sobre o bem passava a ser negociado e liquidado com eficiência, enquanto a carga física permanecia armazenada ou ainda por colher.
Transacionando valores no comércio transaariano (Séculos X–XI): Imagine um mercador prestes a cruzar o deserto partindo do Marrocos. O transporte físico de grandes quantias de ouro era extremamente arriscado devido à logística e ao perigo de saques. Para mitigar esses riscos e custos, o mercador poderia recorrer a um mecanismo de transferência de obrigações conhecido como ḥawāla, operacionalizado por uma rede de mercadores e cambistas distribuídos por diferentes praças comerciais no norte da África.
O processo funcionava assim: o mercador entregava seu capital a um parceiro local e recebia uma Suftaja: um instrumento de pagamento que funcionava como uma ordem de crédito ao portador. Esse documento não possuía valor intrínseco, mas cumpria um papel análogo ao de um token informacional: ele desmaterializava o patrimônio, permitindo que a representação do direito sobre o valor cruzasse o deserto sem que uma única moeda precisasse, de fato, cruzar o deserto.
O sucesso desse sistema dependia de uma sofisticada rede de confiança e reputação entre os parceiros comerciais, que atuava como o protocolo de consenso da época. O que viajava pelas dunas não era o capital físico em cada transação, mas a informação da propriedade. Ao final dos ciclos comerciais, os saldos entre os intermediários eram compensados muitas vezes de forma multilateral, um processo de clearing interno do ḥawāla, minimizando a necessidade de transporte de moeda em espécie entre as cidades.
Esse cenário antecipa a lógica da tokenização moderna: basta trocar a ordem de pagamento por contratos inteligentes e a rede de mercadores pela criptografia para atingir o mesmo objetivo de aumentar a liquidez e a segurança ao transacionar valor com velocidade global.
Os Ourives e o Nascimento do Papel-Moeda (Séc. XVII): A evolução desses “tokens de resgate” encontrou um novo marco de sofisticação na Londres do século XVII. Naquela época, a insegurança das guerras civis e a ausência de um banco central faziam com que manter grandes quantias de ouro em residências ou comércios fosse um risco constante de roubo ou confisco.
Os ourives (goldsmiths), que já possuíam cofres robustos e infraestrutura de segurança naturais do seu próprio ofício, passaram a oferecer o serviço de custódia para terceiros. O ouro era depositado não para uso imediato, mas para proteção, e em troca o depositante recebia um certificado detalhando a quantia guardada. Ao emitirem esses recibos para o ouro depositado, os ourives criaram, na prática, promessas de pagamento ao portador, que transformaram a dinâmica do mercado.
Pela sua praticidade, o público percebeu que era mais eficiente transacionar o papel do que retirar o metal para cada pagamento; assim, os recibos passaram a circular como o próprio dinheiro. Dá para argumentar que esse processo foi um ato de tokenização sistêmica, convertendo um ativo físico, denso e de difícil divisão em um símbolo de papel leve e fracionável.
Esse modelo não apenas facilitou o comércio cotidiano, mas estabeleceu a base da confiança institucional que sustentou o padrão-ouro até a década de 1970. Durante séculos, o dinheiro funcionou como um token de representação de reserva, mantendo um laço direto com o ativo subjacente custodiado.
Hoje, ao tokenizarmos ativos em blockchain, estamos simplesmente migrando o protocolo de emissão de tokens para a blockchain, contribuindo para a transparência e a auditabilidade dessas representações.
A Companhia das Índias Orientais e a Primeira Ação (1602): Se os ourives tokenizaram o estoque de valor, a fundação da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) marcou o início da tokenização empreendimento humano em si. Ao emitir as primeiras ações da história, a VOC realizou um movimento definitivo de abstração: a propriedade da empresa foi fragmentada em papéis negociáveis, permitindo o compartilhamento de riscos (risk pooling) em uma escala sem precedentes.
Como argumenta o historiador financeiro Niall Ferguson, essa inovação foi a pedra angular do capitalismo moderno, pois transformou o direito sobre lucros futuros em um ativo líquido e transferível. Pela primeira vez, o capital de milhares de indivíduos anônimos pôde ser consolidado para financiar projetos globais que seriam arriscados demais para qualquer fortuna individual. A ação nascia, portanto, como um token de participação, um símbolo que não representava apenas um objeto guardado em um cofre, mas o direito sobre uma organização, e sobre uma aposta no sucesso de uma jornada comercial em curso.
Os ETFs e a Metatokenização (Anos 2000): Se a ação de uma empresa já é, na prática, um token (uma representação digital e jurídica de uma fração da propriedade, e não o tijolo da fábrica em si), os ETFs levaram essa abstração a um novo patamar.
O funcionamento é assim: uma gestora compra uma cesta de ativos (como ações ou títulos) e os “empacota” dentro de um fundo, cujas cotas são negociadas na bolsa como se fossem um único papel.
Na esteira da nossa analogia, o ETF funciona como um token que representa outros tokens. Em vez de o investidor ter o trabalho de comprar e gerir 50 ou 100 empresas diferentes, ele transaciona um índice inteiro com a mesma agilidade de quem compra uma única ação. É a destilação da complexidade em uma unidade simples e negociável.
Essa arquitetura consolidou de vez a transição da posse física para a gestão de direitos informacionais. O problema é que, embora a interface seja digital e rápida, essa estrutura ainda está ancorada em camadas de custódia centralizada e processos de compensação que podem levar dias - uma herança das limitações operacionais do século passado que a tecnologia de registro em blockchain agora se propõe a resolver.
O Próximo Passo: A Tokenização Digital e a Liquidez de Tudo
A trajetória que traçamos (da argila suméria aos ETFs) mostra como a economia se beneficia quando conseguimos separar a posse do ativo de sua circulação. O que diferencia a discussão atual sobre tokenização, baseada em blockchain, não é a criação de um novo conceito de propriedade, mas a unificação e atualização do mecanismo de emissão e negociação de tokens.
Hoje, os trilhos que sustentam o mercado tradicional são compostos por camadas de infraestrutura antigas que operam de forma fragmentada. A produção e a manutenção de ativos tradicionais ainda dependem de processos manuais, reconciliações entre diferentes bases de dados e intermediários que tornam a operação lenta e onerosa.
Nesse cenário, os fundos de investimento são um exemplo claro de como essa tecnologia pode ser aplicada. Uma cota de fundo já funciona, na prática, como um token: ela representa uma abstração transacionável de um patrimônio comum. O entrave, contudo, é que essas cotas operam sob protocolos obsoletos que restringem sua liquidez a horários bancários e prazos longos de liquidação. A tokenização via blockchain traz essas cotas para a última instância da eficiência técnica. Ao adotar um registro programável e unificado, a negociação torna-se 24/7 e a liquidação passa a ser instantânea, eliminando a fricção administrativa e reduzindo o custo de observância.
Além dos ganhos operacionais, essa mudança estabelece uma ponte direta com a liquidez nativa dos ambientes digitais descentralizados (DeFi). Atualmente, bilhões de dólares em capital digital buscam exposição a ativos da economia real, mas esbarram na burocracia da infraestrutura tradicional. Ao tokenizar um fundo, permite-se que esse capital acesse o produto sem a necessidade de conversões constantes e onerosas entre sistemas. Considerando os custos operacionais e as ineficiências tributárias como as versões modernas dos saqueadores que assolavam as caravanas do Saara, retoma-se a lógica do sistema ḥawāla: o valor é transacionado através de uma rede de confiança criptográfica que permite que o direito sobre o ativo mude de mãos com agilidade, enquanto o patrimônio subjacente transita e se liquida exclusivamente dentro do ecossistema digital.
Essa jornada evolutiva, que começou com tabuletas de argila e alcançou a abstração dos ETFs, encontra sua fronteira final na infraestrutura que oferecemos hoje. Com a nossa parceira Foxbit Business, entrega soluções completas para fundos que desejam liderar essa transição e operar com ativos digitais de forma segura, programável e escalável. Seja através da emissão tokenizada, de APIs de integração de alta performance ou de uma custódia institucional robusta e canais de distribuição eficientes. Essa é a tecnologia que remove as fricções do século passado e coloca o seu fundo na velocidade da rede.
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Muito bom!
O livro Ascensão do Dinheiro de Niall Ferguson traz mto dos conceitos que escreveu em seu texto! Parabéns pelo raciocínio associativo a este conceito moderno nosso de tokenizacao.